como era delicado o mundo sem internet...
sou uma escritora medíocre, porém uma blogueira mediana, digo mediana pela falta de assiduidade,porque num blog o que realmente importa é que ele seja atualizado sempre, pra manter seu fiel séquito de leitores satisfeito.Talento e estilo também são importantes, mas aí leva-se tempo e perde-se a imediatez. Mas vai ver mediana e medíocre sejam a mesma coisa. Faz alguns anos, meu então namorado ( a palavra ex pra mim soa tão deprimente) me deu um livro de crônicas de cinema, do vinicius de moraes. Segundo o prefácio na época em que ele escrevia o mundo parecia ser mais belo e ingênuo, não havia a internet, nem a tv, e o valor da imagem tinha uma outra dimensão... Enfim, adoro ler como ele escrevia suas crônicas, ele não era um especialista da sétima arte , portanto seus comentários eram leves e saudáveis como um post fresco. Tem uma crônica dele que adoro e vou trancrever um trecho brevemente aqui:
“ TODO MUNDO TEM PENA
A idéia de piedade é uma substância tao elástica que nunca encontraremos em duas criaturas a mesma piedade pela mesma razão. É assim que muitas vezes o que realmente dá pena, pela simples constatação de sua evidência, fá-la desmerecer. Todo mundo tem pena de um pobre na rua, mas é uma pena tão cotidiana que no fim de algum tempo resolve-se mandar essa pena ás favas. Começa-se então a entrar no campo sutil do julgamento so que é e do que não é lamentável nas criaturas. Julga-se conforme o estilo o espírito e a disposição da hora, uns têm pena do guri que pede um tostão para comprar um pão, outros são contra a idéia de uma criança mendigar; preferem dar, por exemplo, para ela comprar uma bala ou ir aum cinema. Alguns perguntam mesmo com ar judicial: “Mas é mesmo pra comprar pão, menino? Se fosse pra ir ao cinema eu dava...”
Há os que só dão às velhas: há os que antipatizam com as velhas, preferem dar a um que pede diretamente para a cachaça, achando que esse é o papel do homem que se degrada ao ponto de estender a mão: beber muito pra esquecer . Essa diversidade de critérios influiu mesmo no modo de pedir . Os pobres representantes desse cour des miracles adaptaram-se muito à psicologia de quem dá . Uma roda de rapazes elegantes, o mendigo já sabe: é preciso uma certa ousadia, uma certa rudeza. Em geral rapazes elegantes não gostam de escândalo. Dão para se ver livres. Uma mulher sozinha, é soó perseguir com jeito: as mulheres na rua não gostam de se sentir abertamente perseguidas. Um homem com a sua dama dará mais facilmente e mais gordamente que desacompanhado. Aos velhos, só velhos deveriam pedir. Gente moça, pensam eles, pode trabalhar . E assim vai por diante.
Que coisa relativa não é ter pena! Eu por exemplo, tenho muito mais pena dessas orquestrazinhas de café, lá no seu poleiro, fazendo uma força clássica pra tocar certinho o seu minueto de Paderewski, que o terrível terremoto de não sie onde, no qual pereceram trinta mil pessoas.
Não se trata de um artifício de crônica . É pena mesmo de fato. Assim, em Cinema, mata-me de pena a figura patética de certos extras que vêm passo a passo, desde os mais remotos tempos da arte, dando tudo para ter a felicidade de aparecer, Meu Deus, um a vezinha só em todo um filme, dizer uma gracinha, fazer uma reportagem com o Sr. Charles Boyer, com o sr. Clark Gable que partem para a Europa em missões de maior importância. Já não quero falar de um Reginald Denny, que não é propriamente um exra, é o ‘amigo do herói do filme” , e que já tem comadado os seus pelotões, apadrinhado duelos e meso duelando ele próprio. Não se trata também desses velhos que fazem “o pai da mocinha” ou então altos comerciantes em reuniões de negócios. Não é tampouco o ‘subgangster”, nem o cômico acidental do filme (o grego dos espirros, o professor em roncos , o técnico em bebedeiras, o gago das horas cruciais, e tantos outros). Não será o verdadeiro extra , o passante de rua, o homem da multidão, que a juda a criar a atmosfera jurídica na ação.
O extra de quem falo não tem a dignidade do xerife dos faroestes, nem a maldade dos seus banditos. Não tem nada a não ser o seu entusiasmo, e é um entusiamo tão espontâneo, tão verdadeiro, tão infantil, que me lembro ter saído uma vez do cinema, a meio da fita, só por pena de um extra desses, seu nome é Jack Mulhall, se não me engano, e se é que se escreve assim . É uma das criaturas mais simpáticas da Terra. Nos tempos mudos chegou a fazer dois ou três galãs, coitado! o diabo foi o seu entusiasmo. Jack fica tão satisfeito de estar representando, tão cheio de si, tão garboso, que ganhava asas em ação. Sua presteza para fazer as coisas, seu serciçalismo, seu arrebatamento quando beijava, sua tristeza quando sofria era vieux jeu demais para que os produtores não se apercebessem. Começaram a “soprá-lo”. Jack se debatia, aparecia aqui e ali, com um sorriso (meu pai do Céu) que estragava logo tudo, tão veemente, tão estimulante, tão certo de si. Empurravam Jack: sai, Jack! Mas virava e mexia, lá vinha ele fazer festa na gente com o seu carão a que não faltava nada para fazê-lo um belo rapaz: nem uma basta cabeleira, nem uma excelente dentadura, um espetáculo lamentável....”
1941


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